Às vezes, gosto de me calar e fechar os olhos ao vento tentando ouvir uma ou outra fábula que ele teria para me ensinar. Deixo-me ficar. Talvez já tenha feito isto tantas outras vezes sem saber que o fazia. Talvez tudo isto seja nada mais que uma novidade para mim.
Às vezes, gosto de deixar a minha vista furar horizontes e tentar encontrar moinhos de vento tão belos, como ja os tivera sonhado; como se alguma vez existissem. Talvez eles rocem-me a pele desde o primeiro dia em que o ar entrou pela primeira vez nos meus pulmões, talvez teria confundido esses moinhos por entre sombras e claridades que iludiam os meus sentidos. Aconteceu.
Às vezes, gosto de beber o veneno de uma lágrima para somente poder sentir a sensação de uma alma destroçada. Um anjo abatido ao qual um dia roubaram as asas; hoje, de que valem novas asas se lhe privaram de sentir o vento beijar-lhe a cara. Talvez chore por chorar, ou queira simplesmente sentir o quanto as lágrimas conseguem molhar.
Às vezes, e só às vezes, finjo que sou lua, destinado a nunca ter visto um Sol, escondendo-me na doçura da vergonha de uma tímida estrela perdida num manto sempre tão escuro, sempre tão frio. Talvez seja esse manto, frio e húmido, que um dia irei usar como coberta para me fazer vaguear pela penúmbra de mundos de arco íris desenhados a carvão. Às vezes, finjo que me visto desse céu azul escuro.
Às vezes corro sem ver ninguém e grito por estar sozinho.
Às vezes, gosto de viver e sentir o quanto isso custa.
Infelizmente, só às vezes...
Vou-me ensinando.
Duarte L. Borges, F-2006
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